terça-feira, 10 de julho de 2018

Para Todos os Jesuses


Todo mundo conhece outras versões de histórias bíblicas, sejam elas de memes da internet, de documentários do History Channel, matérias de revistas ou estudos embasados e comprovados por historiadores, antropólogos, entre outros. Hoje em dia as tantas histórias metafóricas que recheiam o tal livro sagrado já provaram ser exatamente o que sempre foram: metáforas. Para falar sobre um tempo muito, muito distante. Mas, curiosamente, existem pessoas que insistem que elas realmente aconteceram, batendo o pé e afirmando as mãos de Deus em fatos terrenos: uma mulher nascida da milagrosa costela de um homem? Óbvio... Outra mulher que engravida virgem e sem sexo? Porque não? Um homem que andava sobre as águas? Vemos todos os dias.
A Igreja Católica Apostólica Romana deu seu jeito durante todo este tempo (e ainda dá) de pintar o tal Messias como o único salvador, como se somente ele tivesse passado por todos os sofrimentos do mundo e não houvesse mais ninguém a altura. O único prometido a salvar essa terra cheia de pecados foi incompreendido e o final todos já sabem: ele morreu por nós. Por mim, por você, pelo mundo inteiro. Mas a comoção em volta de uma das histórias mais famosas de todos os tempos parece ocultar a simplicidade dos fatos reais: um homem com ideias subversivas à ordem e a paz civil que foi morto pelo Estado. Não parece muito único, né? De lá pra cá, cidades cresceram através do sofrimento e morte de escravos, mulheres e homens que tentaram um suspiro de igualdade e justiça foram torturados, guilhotinados, esfaqueados, baleados, apedrejados, esquartejados, enforcados, mortos. Pessoas que tem coragem de peitar os estados opressores que as regem a gente conhece demais ao longo da história. Jesus Cristo morre todos os dias nos morros do Rio de Janeiro. Jesus Cristo foi torturado e morto durante a Ditadura Militar de 1964 (Brasil). Jesus Cristo carregou muita pedra nas costas pra erguer a histórica Ouro Preto.
Todo mundo sabe que Ouro Preto é uma cidade cheia de pontos turísticos. Um lugar que abrigou uma forca durante a primeira metade do século XIX é um deles. Muitos Nazarenos desafiadores da moral e dos bons costumes devem ter morrido por ali também. Depois da morte da estrela principal daquela sagrada escritura que diz trazer a salvação junto de si, essas várias histórias foram encenadas com o decorrer das décadas, por vezes para a catequização, por outras para serem criticadas e subvertidas mesmo e como é bom quando a segunda opção acontece.
Jesus Era Um Rebelde é um espetáculo itinerante que não só ocupa parte das ruas erguidas por muitos Jesuses negros como também o espaço de assassinato de vários outros Jesuses da mesma época. Explorando vários ângulos, alturas e direcionamentos nas cenas, além de conter instalações, iluminação com fogo e recursos multimídia para a cenografia, essa ocupação do Morro da Forca é um dos pontos altos do espetáculo, pela raridade de acontecimentos no local e pela conexão dos fatos históricos. O público é conduzido a peregrinar da rua até a parte final do Morro, o que funciona muito bem durante toda a encenação, apesar da dificuldade para escutar algumas falas das personagens em determinados momentos.
Os diversos blocos propostos pela peça dão a entender que cada um corresponde a um acontecimento bíblico e para cada acontecimento há uma ligação com um fato atual ou uma nova versão, na maioria das vezes através da visão de uma mulher. Subvertendo algumas histórias da Virgem Maria e de Maria Madalena, Jesus Era Um Rebelde consegue mostrar como a Bíblia carrega uma visão masculina que consegue distorcer atos a primeira vista sagrados e milagrosos, mas que na verdade podem ter sido repletos de crueldade e abuso contra a mulher mesmo.

No entanto, fico me perguntando se há necessidade de tantos gritos e bombas durante algumas cenas. Acredito que esses tipos de recursos cansam o espectador e que a mensagem pode ser transmitida sem a necessidade desse ápice sonoro, além tornarem determinadas cenas dramáticas em excesso. Também me pergunto sobre até que ponto algumas cenas precisam necessariamente ser tão extensas, trazendo uma falta de objetividade. Isso faz com que as duas horas do espetáculo carreguem algumas repetições que poderiam ser evitadas. Apesar disso, as diferentes ocupações do espaço instigam do começo ao fim, até que um show de rock estrelado pelas personagens bíblicas nos conduzem para o fim ao anoitecer. Para todos os Jesuses que passaram por este mundo e os que ainda estão vivendo por aí, quebrando e questionando a cruz que um suposto deus os imcumbiu de carregar. Sempre.

FICHA TÉCNICA

Atuação – Diego Abegão; Ernesto Valença; Fernando Del; Gio de Oliveira; Hayslan Rodrigues; Isabela Freiria; Jaque Line; Letícia Schinelo; Nathane Nathânia; Pedro Gaban; Renan Adrião; Washington Piu; Yago RufatoDireção – Camila Vendramini
Dramaturgia – Gio de Oliveira; Pedro Gaban
Iluminação – Camila Vendramini; Lua Melo Franco; Tiago Calixto
Caracterização – Jéssica Luiza Cardoso

Produção – Christian Rodrigues; Fredd Amorim; Laira Oliva; Vinícius Amorim; Bangalô de Irene Aconchego das artes


Evangelho segundo Tomé


Bem-aventurados os de coração bom e pés calçados que frente ao senhor puderam ver com olhos e mãos as suas chagas, e puderam sentir o calor dos corpos e das línguas de fogo que pairavam ao redor daqueles que escutavam suas palavras. Ainda, bem-aventurados aqueles que entenderam que a procissão longa, as estações e os sermões desta via patibulis¹ era para o espectador ver o que tinha para ser visto e só assim crer.

Ao assistir a qualquer peça é impossível não criar expectativas para aquilo que está por acontecer, ainda mais quando a gente conhece os envolvidos na criação da mesma. Nas mãos da diretora Camila Vendramini, um título, Jesus Era Um Rebelde, não perdeu sua polêmica em nada, mas trouxe uma visão atualizada e muito mais palpável de uma história que não se encontra em um livro milenar e ultrapassado. Era como que um exercício de revisão do texto, na qual os dramaturgos, Gio de Oliveira e Pedro Gaban, se debruçaram e perceberam que aquilo não aconteceu exatamente do jeito que os antigos escreveram.

Numa peça cuja dramaturgia e encenação estão organizadas em estações, os atores conduzem o público ao longo dos espaços e suas temáticas. Quem assiste às cenas poderia facilmente relacionar e fazer referências com passagens bastante comuns no ritual cristão, e (como eu) fazer um exercício rápido de nominar cada uma delas: a concentração do exército de Deus, a anunciação do livre arbítrio de Maria e o plano B do Senhor, a tentação de Jesus nas escadas, o sermão dos três poderes, o fiat² de Maria, os pecados capitais instalados, o sermão da montanha e o eco, o julgamento à brasileira, o comercial cristão e o espetáculo da crucificação de Jesus. Após desfecho, Cristo, apóstolos e simpatizantes se juntaram nas Bodas de Caná. A sequência apresentada, apesar de não ser um roteiro cronológico em algumas cenas, permite ao espectador vivenciar os atos sem prejuízos, porém, quando observados alguns quadros sequenciais era possível uma melhor percepção da obra. Se pudesse então elencar as cenas numa escala de eficácia, o comercial cristão ou a cena do templo tomado por comerciantes ocuparia o topo, enquanto o sermão da montanha e a crucificação teriam o lugar mais baixo. Os critérios para esse ranking levam muito mais em consideração o quanto das cenas chegaram até os espectadores, e as que ocupam a base desse ranking foram aquelas, que a meu ver, não tocaram. O sermão da montanha, por exemplo, apesar de seu potencial, ficou prejudicada na estreia por causa do distanciamento das caixas de som.

Aproveitando o gancho, a técnica da peça foi o único ponto a qual deveriam ter dedicado mais tempo. Vestimentas que eram trocadas ao longo dos atos, eram deixadas em lugares de muita visibilidade e isso provocava uma poluição de cena bastante grande. Um outro momento, quando os atores atiravam bombinhas na fogueira, denotou um descuidado com a segurança dos próprios atores e do público que estava em volta. O risco era muito claro, e alguns espectadores se recusaram a integrar o restante do grupo devido à proximidade com o fogo. Ao final da peça, a presença de um guia com uma lanterna poderia ter facilitado a saída dos espectadores devido a falta de iluminação do espaço e também das escadarias.

Acredito que ajustes tenham sido feitos para o segundo dia de apresentação, mas que a energia e a exaltação dos atores tenha sido a mesma que a da estreia. Realmente, foi belíssimo ver o suor escorrendo no rosto deles, não pelo calor da fogueira ou das tochas, mas porque algo ali dentro parecia ter algo em chamas e pronto para iluminar. Lembro de uma frase dita por um dos personagens que falava algo como que se a verdadeira luz não estivesse na vela, mas sim dentro de nós mesmos. Para uma peça que começou quando o sol ainda estava no céu, houve bastante luz quando por fim, as bodas começaram e a banda tomou seu posto. Jesus estava lá entre os rebeldes! ■ 


¹ Via Patibulis: Caminho da forca em latim fazendo referência à expressão via crucis ou via sacra e ao local de apresentação da peça, que se deu no Morro da Forca em Ouro Preto.
² Fiat: O Fiat de Maria é denominado assim para simbolizar o momento em que Maria de Nazaré aceita o filho de Deus e consente que que seja feita a vontade de Deus.



FICHA TÉCNICA

Atuação – Diego Abegão; Ernesto Valença; Fernando Del; Gio de Oliveira; Hayslan Rodrigues; Isabela Freiria; Jaque Line; Letícia Schinelo; Nathane Nathânia; Pedro Gaban; Renan Adrião; Washington Piu; Yago Rufato
Direção – Camila Vendramini
Dramaturgia – Gio de Oliveira; Pedro Gaban
Iluminação – Camila Vendramini; Lua Melo Franco; Tiago Calixto
Caracterização – Jéssica Luiza Cardoso
Produção – Christian Rodrigues; Fredd Amorim; Laira Oliva; Vinícius Amorim; Bangalô de Irene Aconchego das artes
Arte Gráfica – AbismoEdição de Vídeo – Arthur Medrado
Orientação – Ernesto Valença

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Privê até que ponto?

Quando saio para assistir um espetáculo, nunca crio expectativas de um grande show de talentos e de atuação, tampouco vislumbro uma virtuosidade nas atrizes e atores. Para mim, teatro é lugar de compartilhamento e de aprendizado: ninguém está nem vai ficar pronto. Parafraseando Belchior “absorver e sentir as coisas me interessa mais”. Dito isso, gostaria de compartilhar minha experiência assistindo “Lugar de Fala: Suíte Nº 5”, experimento de conclusão da disciplina do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, Interpretação IV, ministrada pela professora e mestra Raquel Castro.
O espetáculo - que tem como linha de pesquisa a mimesis e que também é dirigido por Raquel - surpreende. Logo de cara, uma sala aparentemente normal; pessoas, TV, sofá – imagem facilmente linkada a de uma família. Ali, vários discursos se cruzam e se chocam. Até que ponto os “memes” da internet são só “memes”? Qual a linha tênue entre discurso de ódio, opinião e opressão? São essas as indagações que as atrizes e atores trazem, todos expostos aos olhares do público curioso.
“Lugar de Fala: Suíte Nº 5” - foto de Théo Mantelato

Encenado no espaço das Moradias Estudantis Universitárias daqui da UFOP, o exercício/espetáculo se apropria dos vidros do prédio e de seus espaços comunitários (até a cozinha comunitária vira palco). O espaço redondo, permite que o público circunde o espaço e se depare com outros personagens. Os personagens foram escolhidos pelas atrizes e atores, segundo indicação da diretora.
“Lugar de Fala: Suíte Nº 5” - foto de Théo Mantelato

Sabe Black Mirror? Então...

“Lugar de Fala: Suíte Nº 5” - foto de Théo Mantelato


O exercício/espetáculo foi apresentado uma única vez e conta com a interpretação de Lívia Maria, Lisandra Paixão, Jaqueline Pinheiro, Diego Abegão, Gustavo Faria, Yago Rufato e Pedro Gaban.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Teatro é Morte. Morte também é Vida.



Não é de hoje que se fala sobre a relação entre arte e vida. O teatro, onde corpos vivos de atores dão forma e movimento às histórias que ficariam estáticas - estátuas perdidas num deserto, existência que não se vê e não produz sentido - se não fossem lidas ou representadas, é muitas vezes visto como uma das artes em que essa aproximação fica mais evidente. Como reflexo de sua efemeridade, o teatro é tido como metáfora da vida. Esquecemos, no entanto, que em sua essência, tanto o teatro quanto a vida são fundamentalmente efêmeros, prenúncio do blackout que precede o cair dos panos. “Cai o Pano” (Curtain) é o nome do livro da Agatha Christie em que nos despedimos do detetive Poirot e ele se despede da própria vida. Poderíamos nos perder em infinitas associações entre o fim de um espetáculo teatral, o descer das cortinas e o anoitecer gelado de quando o coração cessa de pulsar. Maria Alice Vergueiro (São Paulo - 1935), no entanto, nos oferece uma superação da morte em vida ao encenar seu velório em “Why The Horse”, e é a partir dessa obra que ampliaremos nossa percepção sobre as sutis linha entre o real e o ficcional; o concreto e o abstrato; a encenação e a experiência; a morte-vida e a arte.

Em uma atmosfera onírica e de sensações surrealistas, o espetáculo (denominado como um happening em entrevista de vídeo com a atriz) oferece camadas de sentido que entrelaçam o tema da morte (bem como os sinais de perecimento presentes na fragilidade do corpo envelhecido) com um panorama da carreira de Maria Alice nas artes cênicas. Referências diretas a autores e obras interpretados pela atriz, além de trechos de textos e canções que tangenciam o existir e deixar de existir, compõem quadros que se conectam com ações, iluminação e figurino que revelam um imaginário mais bem humorado do que fúnebre sobre o assunto.

A composição principal do palco inclui um piano à esquerda; um fundo de lápides verticais ao centro, com nomes importantes para o teatro, como Stanislavski, Tchekhov, Svoboda, Sarah Kane, Boal, Cocteau, entre outros, além de um nome que não pode ser lido devido a um jarro de flores colocado à sua frente (o nome Maria, talvez?); uma cadeira de rodas; também há elementos que são colocados e às vezes retirados de cena. As maiores transformações que acontecem nesta composição, no entanto, ocorrem devido às interferências das movimentações dos atores e da iluminação, que alterna entre uma geral chapada e branca e entre colorações azuladas e arroxeadas, além da penumbra.

Após o pianista (que executa grande parte da trilha sonora ao vivo) começar a tocar uma música fúnebre, Maria Alice Vergueiro entra em cena, denunciando toda a fragilidade de seu corpo ao ser amparada por dois companheiros que irão contracenar com ela. Luciano Chirolli, parceiro de outros trabalhos, é quem ajeita os joelhos da atriz para que esta se mantenha em pé enquanto atravessa o palco e faz vênias às lápides e à plateia, anunciando: “Obrigada por vocês virem ao meu velório.”. Em seguida, ela é levada até a cadeira de rodas, onde abraça Luciano para se sentar. Eles se olham com cumplicidade e ela começa a cantar o poema de Brecht, “Ó delícia de começar”. Outras referências sobre obras ou atores memoráveis da carreira da atriz geralmente são anunciadas (assim como diversos tipos de quebra são bastante comuns ao longo do espetáculo) e nomes como Beckett, Brecht e Weill são constantes.

Trilha musical; efeitos sonoros; iluminação; figurino (Luciano veste um terno poído, sob o qual traz o peito coberto por bandagens); a presença de uma criatura que poderia ser a morte, vestida com um casaco de folhas e que tem função caótica na dinâmica das ações; leve ao tratar da sexualidade depois dos 60; os relatos da própria atriz, como a afirmação de que não consegue lembrar de um poema que irá recitar e vai precisar do auxílio de sua parceira de cena como ponto; e o tão enigmático cavalo do título são apenas alguns dos elementos que se misturam para criar este universo dramático que se configura quase como um portal que não está localizado nem neste mundo nem no outro, mas delicadamente pousado na interseção entre eles.



FICHA TÉCNICA:
(referência: http://spcultura.prefeitura.sp.gov.br/evento/24357/)

Grupo Pândega

Direção – Maria Alice Vergueiro

Assistente de Direção – Pedro Monticelli

Dramaturgia – Fábio Furtado

Direção de Movimento – Alexandre Magno

Elenco – Maria Alice Vergueiro, Luciano Chirolli, Carolina Splendore, Robson Catalunha, Alexandre Magno e Otávio Ortega

Cenário – J.C. Serroni. Figurino –Telumi Hellen

Desenho de Luz – Guilherme Bonfanti

Trilha Sonora Original – Otávio Ortega

Direção de Produção e Administação – Carla Estefan

Direção de Cena– Elisete Jeremias.Camareira – Maria Cícera

Design Gráfico – Sato – Casadalapa

Operação de Luz – Marcela Katzin

Operação de som – Fabrício Cardeal



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



AMORIM, P. F. Em 'Why the Horse?', Maria Alice Vergueiro encena a própria morte, 2017. Disponivel em: <http://www.huffpostbrasil.com/paloma-franca-amorim/em-why-the-horse-maria-alice-vergueiro-encena-a-propria-mort_a_21676446/>.

MARIA Alice Vergueiro não tem medo da morte. Instituto Hilda Hilst. Disponivel em: <https://www.hildahilst.com.br/blog/maria-alice-vergueiro-nao-tem-medo-da-morte>.

VÌDEO do You Tube. Why the horse - legendado. YouTube. Disponivel em: <https://www.youtube.com/watch?v=ecy7HfSQ328>

sábado, 26 de agosto de 2017

Dorotéia Farsa Irresponsável de Nelson Rodrigues Na Visão De Jorge Farjalla

O espetáculo Dorotéia dirigido por Jorge Farjalla a partir do texto de Nelson Rodrigues. Traz como protagonista da peça a atriz Rosamaria Murtinho e Letícia Espiller no elenco, além dessas atrizes que marcam a divulgação do espetáculo que acaba ganhando um peso de ser Global. Temos a presença das atrizes, Anna Machado, Dida Camero, Jaqueline Farias e Aleixa Deschamps, uma mistura que sustenta o espetáculo. A Proposta do senário traz uma inovação nas cores e formas utilizadas nessa montagem, comparado a outros espetáculos recém montados de Doroteia. Segundo o diretor Jorge Farjalla: o senário e figurinos não seguem as rubricas da peça de Nelson Rodrigues. Além dessa mudança também surge os “Homens Jarros” criação do diretor.
A peça foi escrita por Nelson Rodrigues em 1949. Conta a história da personagem Doroteia que acaba de perder seu filho e decide bater na porta da casa de Dona Flávia, Maura e Carmelita. A moça Doroteia diz ser prima delas. Acontece que as mulheres dessa família são herdeiras de dois sintomas: o primeiro é que não podem ver homens e o segundo todas sentem náuseas após a primeira relação sexual.



O espetáculo da início com um senário organizado para um teatro de arena, mesmo em um palco italiano o diretor tem a preocupação de disponibilizar alguns lugares em volta do palco para que o público se acomode. O que me incomodou foi a forma como essas pessoas foram direcionadas para esses acentos. Depois que toda a plateia se acomodou nas poltronas o espetáculo iniciou e algumas pessoas ainda estavam sendo deslocadas ao redor do palco sujando a cena que já estava acontecendo. Não sei se esse ocorrido aconteceu apenas quando eu assisti. Além disso acredito que a partir do momento que eu estou preste a assisti um trabalho tudo ao meu redor deve ser observado.
  O que mais me chamou atenção do cenário foi as gigantescas arvores colocadas em volta do palco de onde saiam as músicas presentes durante o espetáculo. Das arvores também saiam algumas vezes os Homens Jarros figuras masculinas que circulavam pelas cenas algumas vezes tocando instrumentos outra apenas jogando com os personagens.
Fiquei pensando no formato padrão dos corpos masculinos colocados em cena, todos os atores músicos possuíam físicos bem desenhados e esculturais. Isso talvez não seja resultado da indústria da imagem vendida na mídia? Bom se é ou não é era atraente para a plateia observar esses corpos desfilando pelas cenas. O conjunto de cenário e figurinos que mais lembravam capas de sofá dos anos 70 deram um tom lúdico para o espetáculo. As vozes das atrizes contavam com um sistema que provocavam um eco criando uma atmosfera que lembrava um ambiente pesado como um “Umbral” lugar onde ficam as almas perdidas entre o céu e a terra.  
Dorotéia interpretada por Leticia Spiller que deixou a desejar com sua atuação que em muitos momentos parecia que estava sendo interpretada para uma câmera de TV. Não senti entrega nem força cênica da atriz com a personagem. Apesar dos figurinos e maquiagem serem maravilhosos a atriz deixou por desejar, mesmo assim sua presença era esperada pela plateia que em diversos momentos vibrava quando Leticia Spiller entrava em cena. Isso me causou uma frustação em pensar que muitas das vezes as cassas cheias não são por causa da boa peça e atuação dos atores e sim por conta de uma imagem vendida.
As cenas eram resolvidas de forma inteligente, teve momentos que pareciam jogos de palhaços como a hora que a filha de dona Flavia interpretada por Rosamaria Murtinho   das Dores, personagem que na peça de Nelson Rodrigues havia nascido morta do ventre de sua mãe e cresceu sem saber de seu falecimento. No momento que dona Flavia revela para das Dores que ela nasceu morta das Dores volta para o ventre da mãe para nascer novamente. A cena é resolvida da seguinte forma: a atriz caminha até dona Flavia que está sentada em uma cadeira que fica coberta pela sua saia, nesse momento a personagem das Dores passa por debaixo da cadeira enquanto dona Flavia grita. Forma simples de resolução no momento me pareceu mal trabalhada. Achei um pouco dramático de mais, e lembrei dos jogos de palhaços que muitas das vezes são simples e exagerados.
No todo o espetáculo é interessante tem momentos que aparecem algumas críticas feita por Nelson Rodriguem ao escrever Doroteia. Críticas que falam sobre o padrão de beleza que a sociedade impõem, da mediocridade da família burguesa. Tudo isso o diretor e os atores conseguem chegar em alguns momentos, mais ainda sinto falta de uma interpretação mais entregue isso talvez tenha impedido Dortéia de Jorge Farjalla de receber mais aplausos.    

Ficha Técnica:

Texto: Dorotéia
Autor: Nelson Rodrigues
Diretor: Jorge Farjalla
Assistente de Direção: Diogo pasquim
Elenco: Rasamaria Murtinho, Letícia Spiller, Alexia Drdchamps, Dida Camero, Anna  Machado e Jaqueline Farias.
Homens Jarros (músicos): Fernando Gajo, Pablo Vares, André Américo, Du Machado, Daniel Veiga e Rafael Kalil
Cenógrafo: Zé Dias
Figurino: Lulu Areal
Direção Musical: JP Mendonça
Direção de produção: Bruna Petit
Produção executiva: Sandra Valverde
Produção operacional: Lu Klein




sexta-feira, 25 de agosto de 2017

50 Anos de uma Arte Viva

Cuidados de Amor foi é uma peça escrita e dirigida por José Luiz Ribeiro para o Grupo Divulgação, em Juiz de Fora. Na trama, Isaac acaba de perder a sua mulher, veem em uma de contratar uma pessoa para cuidar de pai. Entretanto, colocam duas irmãs gemias como cuidadoras. Maria Santa e Santinha são interpretadas por Márcia Fallabella. Mal sabem eles que essas irmãs escondem alguns segredos. Diante de tantas intrigas, brigas e alfinetadas entre irmãos, irmãos brigam para decidir o futuro do pai eles se esquecem do que é mais importante que é o pai. O pai fica à mercê das duas irmãs gemias que começam a enlouquecer o Isaac e a trama acaba de forma catastrófica para o personagem de José Luiz Ribeiro.  
cenografia é baseada em portas de madeiras onde podem perfeitamente transformar o espaço cênico de maneira rápida e harmoniosa. Existe também um pequeno sofá e um quadro, esse determinado criando uma ambientação de uma sala é onde se passa boa parte da trama. Quando esse cenário se fecha o espetáculo fica mais sombrio, de forma que, grande parte dos acontecimentos catastróficos acontecem com ele fechado.   
Imagens tiradas do site do Grupo Divulgação: http://www.grupodivulgacao.com.br/repertorio/2014-cuidados-de-amor.php

Podemos ver a relação das duas estruturas de cena nas fotos a cima, dessa forma podemos ver a efetividade da cenografia e da iluminação. Existe na iluminação que conversa com todos os elementos colocados em cena, unindo o ator, a cenografia e o espaço cênico. A luz está presente de forma simbólica assim como os elementos colocados em cena, como o quadro que representa a cidade pequena.  
O viés político do Divulgação está presente também nesse espetáculo, tratando de maneira cômica e dramáticas os maus tratos e o abandono dos idosos. Outro aspecto interessante proposto também pelo grupo, é o projeto escola espectador que é desenvolvido a mais de vinte e cinco anos que leva jovens de diferentes idades das redes públicas de ensino para assistir os espetáculos de forma gratuita. No início de cada espetáculo é distribuído um formulário para que os espectadores possam expressar o que sentiram ao ver o espetáculo, esse formulário ajuda no desenvolvimento do trabalho do grupo e do trabalho que está sendo feito.  
O Divulgação com o seu espetáculo coloca à tona aspectos importantes para os dias atuais, mostrando que um grupo de teatro que tem mais de cinquenta anos de história pode sim desenvolver um espetáculo atual e que converse com seus espectadores jovens. 
FICHA TÉCNICA
Autor: José Luiz Ribeiro
Ano: 2014
Elenco: José Luiz (Isaac), Fátima Amorim (Tais), Victor Dousseau/ Walmor Machado (Marcos), Michell Costa (Matheus), Marina Metri (Joana), Márcia Falabella (Santa Maria e Maria Santa).
Programa sonoro e gravação de trilha: Jocemar de Souza 
Sonotécnica: Carina Salgado
Iluminotécnica: Bárbara Borges
Cartaz: Franciane Lúcia
Fotos: Jesualdo Castro
Registro videográfico: Andréia Oliveira
Figurino: Malu Ribeiro
Cenário, desenho de luz, trilha sonora e direção: José Luiz Ribeiro
Referência: 
http://www.grupodivulgacao.com.br/repertorio/2014-cuidados-de-amor.php